São em dias como
o de hoje que a nostalgia reina sobre o meu físico e eu fico imóvel, sentindo
todo o padecimento em cada batimento do meu coração e em cada lágrima que cai
pelo meu rosto. Gostava que ele soubesse que, apesar de ainda haver
padecimento, eu nunca mas nunca me senti tão forte como hoje me estou a sentir.
Sou de facto uma guerreira, das valentes e nada de exageros. Há dias que doem
mais do que outros e hoje apesar de ser um desses dias, sei que sou forte,
muito forte. Deixo-me de lamentações e sorrio, porque hoje recebi uma mensagem
dele. Finalmente sei que está bem. Cada vez me sinto mais apaixonada. A saudade
é forte e assola-me os dias. Mas estes passam e eu continuo sem saber quem
somos. Sei apenas que fomos o que nós fomos durante três anos. E o que nós
fomos, ele bem sabe. Mas diz-me, diz-me o que somos hoje. Sinto as nossas almas
a desunirem-se e isso dói tanto. Sinto um vazio profundo ao sentir-nos tão
deste jeito extenuado. Perdemo-nos sempre nas tempestades que acabam connosco.
Já não sei de mim e ele, provavelmente, já nem me sente. Que amargura, que
padecimento. E que vida, a nossa, tão
ligada e desligada ao mesmo tempo. Que estranho, que confuso. Que negrume à nossa volta, que almas, as nossas, tão
sem alento. Sinto as nossas almas a
desunirem-se e isso dói tanto. O meu coração lacrimeja pela falta que lhe
fazes, pela falta que tu me fazes e pelas palavras que tu não lês. Só te quero
amar, sentir-te comigo e voar a teu lado. Mas primeiro tens de te decidir.
Escolhi-te a ti porque és tu quem eu amo, agora vê se consegues tornar os teus
pensamentos mais nítidos porque não estou a conseguir lidar com esta confusão.
Tu és tal e qual como chamas de fogo que se pegam ao meu corpo indefeso. És tal
e qual como água gélida que afoga o meu corpo enfraquecido. És tal e qual como
um buraco de areia suja a matar-me a respiração, uma arca congeladora a
congelar-me o corpo e um frigorífico a refrescar-mo. És como raios de sol a
queimarem-me a pele, como bichos horrendos a comerem-me o corpo. Identifico-te
como um tsunami, levas tudo à frente. O meu corpo já quase a morrer, acaba
sempre nos braços da terra que frequentou com a tua maldita força de matar tudo
o que te aparece. És lama que me seca o corpo, és a perda de todos os meus
sentidos. Assim fazes mal a todo o meu ser e rebentas o meu cérebro. Decidi-te,
meu querido. Porque assim dás cabo dos meus órgãos, dás facadas ao meu coração
e apodreces a minha alma. Assim deixas-me sem forças. E eu que pensava que
estava mais forte. Que ingénua que fui. Possivelmente, não te apercebes do
tempo a correr à velocidade da luz, a passar-te ao lado e nem tempo arranjas para saboreá-lo um pouco mais. Mas quando o teu padecimento começa a ficar
pesado, a ficar-te difícil de acarretá-lo e não consegues mais suportá-lo,
mudas de semblante e sabes qual o melhor caminho a percorrer. Tu sabes também
que se um dia tudo submergir, o nosso barco deixará de ter remos e o nosso amor
bases. É por isso que a tua luta é constante e por mais que os maremotos sejam
desastrosos, tentas remar contra todos eles e não deixas que o nosso barco
submerja e os remos se percam no meio de tanta agitação. Mesmo assim,
apercebe-te mais do tempo que te passo ao lado e não deixes o nosso barco, não
deixes o nosso amor, ir à deriva de vez em quando. Confio em ti. Confiarei
sempre em ti. Mas agora, só agora, sinto que me dói tudo. A força inicialmente
sentida foi momentânea. Sinto-me cansada, com vontade de dizer adeus a tudo e
todos. Dói-me a alma e o órgão cardíaco que me dá vida a todo este meu físico
que se encontra cansado, fatigado, e já não tenho força nem vontade para manter
este órgão a funcionar. Tudo me pesa. Quero fugir daqui, desta vida, fugir de
mim, fugir de todos e levá-lo comigo. Queria correr todo o arruamento sombrio e
lamacento e esconder-me num resguardo que ninguém conhecesse. Queria fugir sem
deixar as minhas pegadas para ninguém me encontrar. Queria fugir só para me
afastar um pouco da cruel realidade e dos fantasmas que me invadiram o leito. Até
me dói os olhos de tanto pranto lacrimejado. É tão extenuante sentir todo o
cansaço na nossa vida. O coração dói, a alma chora e toda as minhas forças se
vão esgotando. A minha vida não era assim, repletas de tempestades de idas e
vindas. Tudo me tem aniquilado a alma. Toda a minha luta contra o negrume da
minha vida se tem esgotado e já me sinto cansada do amor. Triste não é? É
desgastante. A dor não se desvanece e eu estou completamente cansada de tudo.
Sabes que mais? Também tenho medo de me cansar de ti. Porque é que a minha vida
mudou tanto desde que descobri que te amava? Sinto-te a falta e estou cansada. Estou
completamente fatigada desta negridão que me envolve e me consome, desta vida
que nem sei se é vida. Preciso de força, preciso realmente de muita força.
Aquela que tu me davas quando me olhavas nos olhos e quando me fazias sorrir.
Socorre-me neste dia que parece não ter fim. Acumulei muita mágoa e sentimentos
mórbidos em mim que agora já me pesam bastante. Necessito de colocar cá para
fora todo esse peso que já me corrói há muito e preciso urgentemente do teu
alento e de ti par me segurar porque olha, meu amor, eu vou cair novamente. Quero
adejar, mas quero adejar eternamente e conhecer o firmamento, o jardim das
flores pitorescas. Dói-me as pessoas, e este lar. Hoje dói-me tudo. Preciso dele,
mais uma vez. Mas esta dor que trago no peito é cada vez maior e mais forte.
Que maldita dor, nociva e horrorosa, que me esgota todos os dias um pouco mais,
que me desacelera o coração e me inflama o corpo que se encontra já há uns
tempos para cá, mórbido e sem forças para se segurar. A débil brisa repleta de
mágoa insere-se em mim tão bruscamente deixando-me completamente de rastos como
algo pesado a esmagar-me o corpo. É uma tremenda invasão, um abalamento total e
um terrível acabamento do meu ser. Que sensação desconfortante, uma inquietação
da alma e um muito mal-estar do coração. Atormenta-me todo o ser e faz-me
falecer aos poucos. Estou cravada na dor, na mágoa. Cai o mundo aos meus pés
vezes conta, sem uma única piedade. Ando umas vezes em cima em conjunto com a
natureza, com a multidão à volta e o universo com os seus constituintes à
espreita. Umas vezes em baixo com o meu corpo pregado no chão gélido e sujo,
onde caminham bichos horrorosos e saboreiam a minha pele insossa e sem cor.
Ando unida à angústia, à dor, à aflição. Sinto-me constantemente perdida. Ouço
os gritos aflitos de quem chama constantemente o meu nome mas concentro-me com
o silêncio depressivo. Sinto o corpo a ficar cada vez mais dorido e o meu
coração a morrer de desgostos. Sinto raiva de não conseguir viver a vida da melhor
forma, viver a vida ao lado do rapaz que amo e isso faz-me sentir um vazio em
tudo o que me rodeia. Mais uma vez. As minhas lágrimas soltam-se num
aceleramento interminável. Encharcam-me de uma tal maneira que nem eu as
consigo parar. Em conjuntura com o sol, tentam ser mais fortes e resistirem à
força da luz quente que teima em queimá-las e secá-las. O meu corpo sem forças
pede socorro às almas perdidas que teimam torturar o além. Sem dó, as lágrimas
formam um rio que teimam em formar ondas para me afogar nelas. Encontro-me num
beco sem saída porque não sei o que fazer para conquistar o coração do rapaz
que amo. Estou caída no meio de um buraco com lama. Não tenho forças sequer
para poder erguer-me. Tenho o rosto a sugar-me as lágrimas que os olhos deitam,
tenho o corpo a tremer de frio, a ensopar-se de lama, de sujidade. Sinto o
coração a bater mais devagar, sinto-o a congelar-se. Ouço o vento de vez em
quando a soprar furiosamente, a bater com os seus braços sobre telhados de
casas e a partir tudo o que lhe agrada. As lágrimas são tantas que molham tudo
sobre a terra, inundam valas e terras e ajudam a refrescar a natureza. Porque
não me refrescam também a mim? As horas passam e continuo aqui, sem ninguém e
sem forças para sobreviver. Fico com medo, assustada com o tempo e assim fico a
ouvir sons estranhos, sentires esquisitos e falas por perto. Fico aflita e sem
saber como agir. Grito, grito e grito e acabo por ficar rouca. Sem mais fala
por onde pegar, deixo-me ficar e morrer por ali. Assim, sem compaixão. É a
minha alma a gritar. Perdi-me num dédalo, nos vocábulos que não te proferi e
nas longas esperas no tempo que na verdade nem sabia o que esperar. Perdi-me e
já não sei de mim. Encontra-me, meu amor. Encontra-me.
Agosto 2012
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